A alergia alimentar é uma condição potencialmente grave e, em alguns casos, pode ser fatal, sobretudo quando ocorre anafilaxia. Trata-se de uma reação do sistema imunitário em que o organismo identifica erradamente proteínas presentes nos alimentos como uma ameaça. Estas substâncias são designadas por alergénios.
De acordo com a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), as alergias alimentares representam um problema crescente de saúde pública, com impacto significativo na qualidade de vida dos doentes e das suas famílias, podendo provocar reações graves como a anafilaxia.
Epidemiologia e prevalência em contexto escolar
A alergia alimentar é mais frequente na infância, podendo persistir ou surgir na idade adulta.
Estima-se que:
- Afete cerca de 3% a 8% das crianças
- Afete aproximadamente 1% a 3% dos adultos
- Tenha vindo a aumentar nas últimas décadas, acompanhando o crescimento das doenças alérgicas
Em contexto escolar, esta prevalência traduz-se, na prática, em cerca de 1 a 2 alunos com alergia alimentar por cada turma de 25 alunos, embora este número possa variar consoante a idade e a população em causa.
Manual / regulamento para escolas sobre alergias alimentares
Em Portugal existe um documento oficial de referência nacional, emitido pela Direção-Geral da Saúde (DGS) em articulação com o Ministério da Educação e sociedades científicas como a SPAIC.
Este regulamento define:
- Procedimentos de prevenção na escola
- Gestão de alunos com alergia alimentar
- Plano de atuação em caso de reação alérgica
- Formação de professores e assistentes operacionais
- Procedimentos de emergência, incluindo anafilaxia
https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/alergia-alimentar-na-escola-pdf.aspx
Alergia alimentar vs intolerância alimentar
É fundamental distinguir estas duas condições:
Alergia alimentar
- Envolve o sistema imunitário
- Pode desencadear reações rápidas e graves
- Pode evoluir para anafilaxia
Intolerância alimentar
- Não envolve o sistema imunitário
- Está relacionada com dificuldades digestivas ou metabólicas
- Não é potencialmente fatal
Exemplo: intolerância à lactose, que pode causar:
- Inchaço abdominal
- Gases
- Dor abdominal
- Diarreia
Como se manifesta a alergia alimentar
As reações alérgicas surgem geralmente entre minutos e até duas horas após a ingestão do alimento.
Podem afetar vários sistemas do organismo:
Pele e mucosas
- Urticária
- Vermelhidão
- Comichão
- Inchaço dos lábios, face ou olhos (angioedema)
Sistema respiratório
- Tosse
- Pieira
- Dificuldade respiratória
- Congestão nasal
Sistema gastrointestinal
- Náuseas
- Vómitos
- Dor abdominal
- Diarreia
Sistema cardiovascular
- Tonturas
- Queda da tensão arterial
- Desmaio
Anafilaxia
A anafilaxia é a forma mais grave de alergia alimentar.
Trata-se de uma reação sistémica grave e potencialmente fatal que requer assistência médica imediata.
Os principais sinais incluem:
- Dificuldade respiratória
- Queda da tensão arterial
- Alterações do estado de consciência
- Sintomas cutâneos associados a sintomas respiratórios ou cardiovasculares
O tratamento de primeira linha é a adrenalina intramuscular, administrada através de auto-injetor quando prescrito pelo médico.
Tratamento e controlo
Atualmente, não existe cura definitiva para a maioria das alergias alimentares. O controlo baseia-se em:
✔️ Evicção do alergénio
Eliminação total do alimento responsável pela reação.
✔️ Educação do doente e família
Reconhecimento precoce dos sintomas e atuação em caso de reação.
✔️ Leitura de rótulos
Na União Europeia, os principais alergénios devem ser obrigatoriamente identificados nos alimentos embalados.
https://www.dgav.pt/wp-content/uploads/2020/11/Legislacao_Rotulagem-de-Origem_portal_novo_rev.pdf
✔️ Prevenção da contaminação cruzada
Especialmente importante na restauração, escolas e indústria alimentar.
✔️ Plano de emergência
Em casos moderados a graves, pode ser necessária a prescrição de adrenalina auto-injetável.
✔️ Imunoterapia oral (casos selecionados)
Tratamento emergente realizado em centros especializados, com o objetivo de aumentar a tolerância a determinados alimentos, como o leite ou o amendoim.
Principais alimentos alergénicos
Os alimentos mais frequentemente associados a alergias alimentares são:
- Leite de vaca
- Ovo
- Amendoim
- Frutos de casca rija (nozes, amêndoas, avelãs, entre outros)
- Peixe
- Marisco
- Trigo
- Soja
- Sésamo
Estes representam a maioria dos casos de alergia alimentar diagnosticada.
Impacto na qualidade de vida
A alergia alimentar pode ter um impacto significativo na vida diária, incluindo:
- Ansiedade associada à alimentação
- Limitações sociais e escolares
- Risco de exposição acidental
- Impacto emocional em crianças e famílias
Conclusão
A alergia alimentar é uma doença IgE mediada potencialmente fatal que exige diagnóstico médico adequado, educação contínua e medidas rigorosas de evicção. A informação e a prevenção são fundamentais para reduzir o risco de reações graves e melhorar a qualidade de vida das pessoas afetadas assim como acompanhamento médico adequado.
